Casais: como o trabalho pode adoecer a relação

Há um mito profundamente enraizado nas relações amorosas de que, quando surgem conflitos, um dos dois precisa ser o culpado. Basta a convivência ficar mais difícil, o diálogo se perder ou o silêncio começar a pesar, para que cada um se olhe com desconfiança e conclua que algo está errado… com o outro. Na prática clínica, isso aparece com muito.

Os casais chegam à terapia com frases dolorosas, como “ele não me faz feliz”, “ela não me entende”, “tudo o que eu faço é criticado”, “parece que nada está bom”. Quando a dor emocional começa a tomar espaço, é natural que cada um procure uma explicação imediata dentro da própria relação.

Porém, conforme a escuta se aprofunda, conforme a história é contada com calma e cada detalhe começa a ganhar cor, um padrão extremamente comum se revela: muitas vezes, o conflito não nasceu dentro da casa, mas do lado de fora.

A relação está sendo ferida por fatores externos, como o trabalho, e os parceiros não conseguem perceber. O mundo contemporâneo exige demais… produtividade, disponibilidade constante, metas, pressão e uma capacidade emocional que, muitas vezes, ultrapassa o que um ser humano consegue sustentar diariamente.

O problema é que ninguém ensina um adulto exausto a voltar para casa “inteiro”.

As pessoas chegam após um dia difícil carregando irritação, tensão muscular, preocupação com prazos, medo de falhar, contas para pagar, sensação de insuficiência. Elas chegam, mas não chegam de verdade. O corpo entra pela porta; a cabeça fica no trabalho. E quando isso acontece repetidamente, sem espaço para descanso e sem elaboração emocional, o relacionamento passa a absorver o impacto. É assim que discussões pequenas se tornam grandes, até o tom de voz muda sem que ninguém perceba.

Na terapia de casal, quando nomeamos esse processo, nasce um alívio. Não porque a responsabilidade desaparece, mas porque, pela primeira vez, o casal entende que não está lutando um contra o outro, mas contra uma dinâmica da vida agitada que levam.

Já observou como seu trabalho está presente na vida de vocês?

O trabalho, quando atravessa limites, se torna uma fonte constante de estresse. Ele drena a energia emocional que deveria ser compartilhada no vínculo, suga a paciência necessária para o diálogo, rouba a disponibilidade afetiva e enfraquece a atenção que sustenta uma relação saudável. Uma pessoa esgotada se torna mais reativa, mais defensiva, mais sensível ao erro do outro. Não porque não ama, mas porque está emocionalmente no limite.

Do outro lado, quem convive com essa exaustão sem compreender sua origem também sofre. Sente-se ignorado, desvalorizado, desimportante. Acredita que o parceiro mudou, que o amor diminuiu, que o interesse acabou. E, para se proteger, começa a se afastar. Assim, sem que ninguém tenha intenção, cria-se um ciclo em que o trabalho invade o espaço íntimo e o casal se perde dentro de uma rotina que vai, aos poucos, apagando a relação.

É por isso que a terapia de casal é tão importante. Ela oferece um espaço seguro para que cada um reconheça o que sente e por que sente. Assim, é possível que o casal compreenda que existem camadas, contextos, pressões e histórias por trás de cada conflito.

Quando o casal reconhece isso, cria-se um novo tipo de parceria… mais madura, mais consciente, mais humana. A terapia também ajuda a reorganizar prioridades, estabelecer limites saudáveis com o trabalho, resgatar o diálogo e reconstruir o afeto. Ela devolve ao casal a capacidade de olhar para o outro com gentileza, de nomear as dores e de criar estratégias para que o vínculo continue existindo.

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Daniela Martins - Doctoralia.com.br