Performar o descanso: é preciso ler na praia?

Um vídeo polêmico gerou grande repercussão nas redes sociais. Um homem filmou mulheres que estavam na praia bebendo cerveja e usando o celular e, ao postar o conteúdo, as criticou por não estarem aproveitando seu tempo para serem produtivas, lendo livros por exemplo. No mesmo vídeo, ele exaltava a si mesmo e à esposa por estarem lendo à beira-mar e, em tom depreciativo, associou a atitude das mulheres à pobreza, usando a palavra como ofensa. A gravação rapidamente viralizou, gerando indignação, críticas contundentes e debates sobre elitismo, preconceito de classe e performatividade moral.

A reação do público foi ampla e majoritariamente crítica. Muitas pessoas apontaram o caráter humilhante da exposição, a violência simbólica envolvida e o quanto o vídeo revelava uma lógica perigosa de hierarquização das pessoas a partir de hábitos de lazer. Outros destacaram que leitura não é sinônimo de superioridade moral, nem um marcador legítimo de valor humano ou intelectual. O caso acabou se tornando um exemplo claro de como comportamentos cotidianos podem ser usados para reforçar desigualdades sociais e para sustentar uma falsa sensação de distinção.

PERFORMAR NO DESCANSO

Esse episódio também escancara algo importante sobre a forma como lidamos com o descanso. Existe, cada vez mais, uma pressão para transformar até os momentos de pausa em algo produtivo, exibível ou socialmente validável. Ler é maravilhoso para quem gosta, encontra prazer nisso e escolhe esse caminho. Mas a praia não é um espaço com regras morais sobre o que se deve ou não fazer. Ela pode ser lugar de silêncio ou de conversa, de livro ou de música, de cerveja gelada ou apenas de observar o mar.

Descansar não precisa ser performático. O descanso não é menos legítimo se não parecer “elevado” aos olhos dos outros. Ele cumpre sua função quando permite que o corpo e a mente desacelerem, quando oferece alívio, prazer e alguma forma de presença consigo mesmo. Para algumas pessoas, isso acontece lendo. Para outras, rindo, conversando, dormindo, caminhando ou simplesmente não fazendo nada.

Quando o lazer vira competição, ele deixa de cumprir seu papel. E quando alguém sente a necessidade de diminuir o outro para validar a própria escolha, o problema não está no que o outro faz, mas na fragilidade de quem precisa se afirmar o tempo todo. O descanso, assim como os gostos e os hábitos, é profundamente subjetivo. Respeitar isso é um sinal básico de maturidade emocional e convivência em sociedade.

Talvez o aprendizado que esse caso deixe seja simples e necessário: ninguém é melhor porque lê na praia, assim como ninguém é menor porque escolhe uma cerveja, um mergulho ou uma conversa. Praia não é para ler, se você não quiser. Praia é para descansar do jeito que for possível, honesto e suficiente para cada um. E isso, por si só, já deveria bastar.

Daniela Martins - Doctoralia.com.br