Minha experiência com a maternidade

Durante muito tempo, eu achei que talvez nunca viveria a maternidade. E essa é uma frase que ainda hoje me atravessa quando olho para trás e revisito tudo o que aconteceu na minha história.

Eu tinha apenas 14 anos quando fui diagnosticada com um câncer de fígado em estágio avançado. Enquanto muitas adolescentes estavam vivendo as descobertas típicas daquela fase, eu estava entrando em hospitais, enfrentando cirurgias, quimioterapias e um tratamento experimental nos Estados Unidos. Meu corpo mudou muito cedo. Minha relação com a vida também.

Mas talvez uma das marcas mais profundas daquele período tenha sido ouvir dos médicos que minhas chances de engravidar no futuro eram mínimas, quase inexistentes. Eu era muito nova, mas compreendi o peso daquela frase. E, mesmo sem falar sobre isso abertamente, aquela possibilidade passou a existir silenciosamente dentro de mim.

Anos depois, já formada em fisioterapia e vivendo uma relação construída com muito amor e parceria ao lado do meu marido, Vinicius, recebi uma notícia que mudou novamente a minha vida. Depois de uma alteração em exames de rotina, achei que estivesse diante de um novo câncer. O medo veio imediatamente. Meu corpo carregava memórias difíceis demais para ignorar qualquer sinal.

Mas, dessa vez, não era a doença retornando.

Era a vida.

Eu estava grávida.

Lembro do impacto daquela notícia até hoje. Não era apenas um teste positivo. Era a quebra de uma sentença que eu carreguei durante anos. Pela primeira vez, o impossível parecia não existir mais. E então nasceu a Luísa.

A maternidade chegou para mim acompanhada de muito amor, mas também de muitos desafios. Minha filha recebeu, ao longo dos anos, diagnósticos importantes como TDAH, autismo e deficiência auditiva. E, junto disso, vieram consultas, terapias, preconceitos, dúvidas, medos e uma necessidade enorme de aprender a maternar dentro de uma realidade que não era idealizada.

Eu precisei aprender que maternidade não é perfeição. Não é linearidade. Não é controle.

E a vida ainda me atravessaria mais uma vez quando o câncer voltou enquanto a Luísa ainda era pequena. Talvez esse tenha sido um dos períodos mais difíceis emocionalmente para mim. Porque, além da dor física e do medo da doença, existia a culpa de me sentir uma mãe ausente. Eu precisava lutar pela minha sobrevivência enquanto desejava desesperadamente estar inteira para minha filha.

Foi justamente no meio desse caos que comecei a olhar com mais profundidade para as dores emocionais que atravessam mães, filhos e famílias. A fisioterapia sempre foi uma profissão que amei profundamente, mas comecei a sentir necessidade de compreender também aquilo que não aparecia nos exames ou no corpo físico. Foi assim que mergulhei na psicanálise.

Hoje, olhando para a minha trajetória, entendo que a maternidade me transformou em muitos níveis. Ela me ensinou sobre vulnerabilidade, medo, força, presença e imperfeição. Me ensinou que amor não elimina sofrimento, mas pode dar sentido à travessia.

Ser mãe da Luísa é uma das maiores honras da minha vida. Não porque tenha sido fácil, mas justamente porque foi real. Porque crescemos juntas. Porque atravessamos dores juntas. Porque existe algo muito profundo em olhar para ela hoje, adulta, construindo a própria história, e perceber tudo o que vivemos até aqui.

A minha experiência com a maternidade nunca foi sobre perfeição. Foi sobre permanência. Sobre continuar, mesmo quando parecia impossível.

Daniela Martins - Doctoralia.com.br